Publicado em Folha de São Paulo, 26/07/99

Mercosul e exportação de alimentos

Por Jorge Hugo Herrera Vegas


As importantes mudanças na Argentina e no Brasil durante a década de 90 desenvolveram-se no marco de uma forte e progressiva abertura ao mundo dentro de um projeto de integração regional, o Mercosul. O outro importante protagonista desta década, além da abertura e da integração, é a globalização, que nos põe em contato imediato com tudo o que ocorre no mundo.

Após termos treinado fortemente no mercado intra-regional, aproveitando os primeiros anos do Mercosul, é tempo de começarmos a usar o que aprendemos para desafiar mercados cujas condições de acesso são mais restritas.

O Mercosul, desde o início, foi concebido como um "regionalismo aberto", decidindo-se por um baixo nível de proteção tarifária. A idéia é possibilitar, entre outras coisas, o desenvolvimento da região como uma verdadeira plataforma de exportação de todos os produtos nos quais realmente temos vantagens comparativas. Estas, mediante inovação tecnológica e economia de escala, podem transformar-se em efetivas vantagens competitivas.

Os agroalimentos, na região, apresentam essas características. Abundantes e excelentes recursos naturais permitem a produção primária em grande escala, que pode ser eficientemente transformada para satisfazer a demanda crescente do mercado mundial, como resposta ao aumento de investimentos diretos nos países da zona Ásia-Pacífico. Com isso, serão necessários mais e melhores alimentos, mais saudáveis, nutritivos e saborosos.

O Mercosul tem 210 milhões de habitantes, o maior rebanho bovino comercial do mundo (230 milhões de cabeças), as duas bacias hidrográficas mais importantes da Terra e enormes possibilidades de expansão de sua fronteira agropecuária, caso único no mundo. Se fizermos bem as coisas, no futuro, seremos os principais atores do mercado mundial de alimentos. O Brasil, devido a sua escala, é a chave para atingir esse ambicioso objetivo.

A especialização também é condição essencial para alcançar nossa meta. Ela requer um correto posicionamento geográfico, para obtermos máxima eficiência na colocação de nossa produção. Por exemplo, podemos inferir que as melhores possibilidades para a soja estejam no cerrado brasileiro; o mesmo vale para o girassol na Argentina.

No Mercosul, a exportação de agroalimentos para terceiros mercados é hoje superior ao comércio intrazonal e superavitária em termos de balança comercial. Devemos nos esforçar por uma participação crescente e contínua nesses mercados. Para isso, não basta apenas aumentar a produção e a eficiência ao longo da cadeia alimentar; também é preciso pressionar em conjunto para obter maior acesso a esses países, que se caracterizam por um alto nível de protecionismo, seja por impostos, cotas ou barreiras não-tarifárias. Para que seus produtos industrializados tenham melhores condições de acesso ao Mercosul, a União Européia deveria liberalizar progressivamente seu comércio de produtos agrícolas.

Devemos criar, além disso, um "carimbo Mercosul", que permita o reconhecimento de nossos produtos e seja sinônimo de alimentos abundantes, saudáveis e com a melhor relação qualidade/preço. Exemplo disso é o caso da carne bovina. Nem o Brasil, por sua produtividade, nem a Argentina, por sua escala, têm capacidade de abastecer o mercado asiático. Pelo cruzamento, em poucos anos (estamos falando de uma ou duas gerações) podemos obter maiores precocidade e produtividade, menores tempos de engorda e custos de produção e a qualidade necessária para abastecer esse mercado com "carnes Mercosul".

Há muitos outros exemplos de associação na busca de vantagens competitivas. O caso da cooperação Minas Gerais-Patagônia para a produção de batata é um modelo claramente bem-sucedido de integração de pequenas e médias empresas dentro da região.

Em suma, devemos buscar nossos caminhos aproveitando o amplo mercado do Mercosul. Ele não deve significar uma ameaça, e sim o contrário: nosso treinamento em comércio exterior para quando a demanda dos mercados mundiais se recompuser.

Temos tudo para ser os protagonistas do comércio agroalimentício do próximo século. Para isso, não devemos economizar nenhum esforço nem trabalhar de forma isolada. Temos de começar a atuar conjuntamente (e não só nas próximas negociações agrícolas na Organização Mundial do Comércio) para defender uma maior penetração dos produtos do Mercosul.

Quando iniciarmos essas reivindicações, a opinião internacional entenderá que estamos dispostos a defender os setores nos quais lutamos para ser os protagonistas do futuro. Certamente, teremos muito a contribuir para a segurança alimentar mundial.