Publicado em Folha de São Paulo, 30/09/99

TENDÊNCIAS/DEBATES
Apenas um mau momento

Por Jorge Hugo Herrera Vegas,
Embaixador da Argentina no Brasil.


Resistir às pressões protecionistas deve ser a palavra de ordem na Argentina e no Brasil

Quero referir-me mais do que às recentes tensões e conflitos dentro do Mercosul. Falo da problemática da inserção do nosso bloco na economia mundial. Acredito que esse é um tema relevante, que fundamenta a própria existência do bloco e que deve permanentemente estar, de forma subjacente, na mente daqueles que têm de negociar os conflitos que nele surgem.

A meu ver, para nossos países, o desafio do século 21 será, basicamente, de caráter econômico e comercial. Venceremos com as políticas corretas ou perderemos com políticas erradas. A vitória é o crescimento econômico e o desenvolvimento social. A derrota se traduzirá em mais pobreza e mais atraso.

Façamos um diagnóstico realista sobre o que representa o Mercosul no mundo de hoje para, a partir disso, pensar a que podemos razoavelmente aspirar.

Duas questões são relevantes. A primeira é a participação do Mercosul na economia mundial. O Mercosul é assinalado como o quarto bloco econômico do planeta, depois do Nafta, da União Européia e do Japão. Mas isso não descreve as enormes distâncias que nos separam desses centros em termos políticos, econômicos e culturais. Só representamos 3% do PIB mundial e 1,6% do comércio do mundo todo. Isso para o Mercosul é um dado exógeno, portanto inalterável no curto prazo.

Outro fenômeno do final do século 20 é a globalização, também um dado exógeno para nós, com o avanço das telecomunicações e da Internet.

Ambos os fatos podem ser percebidos como uma ameaça. Então, desde o ponto de vista econômico, a sociedade pressionará para que se feche a economia e se isole o país. As duas contingências podem ser vistas, por outro lado, como uma oportunidade que permitirá ao Mercosul integrar-se ao mundo ofensivamente, aproveitando os espaços e as oportunidades que ela nos proporciona.

Nossa falta de inserção na economia mundial limitou severamente nossa capacidade de aproveitar as oportunidades que oferece o mundo globalizado, contribuindo para a má distribuição da riqueza entre regiões e cidadãos dos nossos países e limitando a capacidade de crescimento.

Devemos reconhecer que a Argentina e o Brasil padecem sérios problemas macroeconômicos, tais como falta de poupança interna suficiente, déficits permanentes nas contas públicas e baixos níveis de produtividade, entre outros. As soluções para esses problemas são nacionais. O que a globalização fez foi expô-los de forma crua.

Não temos alternativa à responsabilidade fiscal e à poupança interna. Sem essas condições não haverá solvência, e sem solvência não haverá investimentos suficientes, nem nacionais nem estrangeiros.

O Mercosul realizou um esforço importante durante a última década para se abrir às correntes comerciais, mas devemos reconhecer que o referido processo é, ainda, limitado e incompleto. Seu calcanhar-de-aquiles é sua insuficiência exportadora, que se encontra estreitamente relacionada com os problemas macroeconômicos antes mencionados. Nesse sentido temos que lembrar que a discussão sobre as virtudes ou desvantagens do livre comércio deve levar em consideração que a proteção de um setor implica a desproteção de outro e que tomar uma decisão errada nesse campo gera custos para o conjunto da sociedade.

O Mercosul é o componente econômico e comercial da aliança estratégica entre o Brasil e a Argentina. Essa aliança é um imperativo categórico porque é o passo necessário para que nossos países possam se integrar com maiores possibilidades de êxito na economia internacional.

O Mercosul atravessa uma crise que é consequência, em grande medida, dos ciclos da economia capitalista. Este ciclo, que afetou profundamente toda a América do Sul, é temporário, e já é possível começar a perceber sinais de que o pior já passou.

Portanto o que há a fazer com o Mercosul é passar o mau momento e continuar avançando. Resistir às pressões protecionistas deve ser a palavra de ordem na Argentina e no Brasil. Mas também devemos aprofundá-lo, harmonizando as políticas macroeconômicas dos Estados-membros, incorporando a liberalização dos serviços e oferecendo verdadeira dimensão política e institucional à nossa organização.